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Elaine dos Santos (*)

A família Almeida vivia no interior paulista e o patriarca apresentava-se em fazendas de café, atuando em palestras cômicas (um show parecido com os atuais “stand ups”). Certa noite, adoentado, ele determinou ao filho, José Epaminondas, que avisasse ao fazendeiro que não haveria show. O menino, chegando à fazenda, apresentou-se como o novo palestrante, realizou o espetáculo e foi aplaudido. Nascia, ali, Nhô Bastião. O ano era 1929, numa fazenda de café em Sorocaba/SP. Nhô Bastião formaria uma dupla caipira com a irmã, Isolina, a Nhana, e empresariados pelo pai, eles seguiram apresentando-se em lavouras. Mais tarde, a família comprou o Circo Oriente, passando a excursionar. Sob a batuta de Nhô Bastião, o circo cresceu e ele adquiriu a Politeama Oriente, um pavilhão de zinco, passando a viajar pelo interior paulista e pelos três estados do sul do Brasil.

Paulatinamente, Nhô Bastião passou a preparar o seu filho mais velho, José Maria, o galã da companhia, para sucedê-lo. A família mantinha, apesar das viagens, uma chácara em Ponta Grossa/PR, para onde, de tempos em tempos, regressava. Naquele espaço, nasceram vários circos-teatros ainda em atuação no país, como o Teatro Biriba, que excursiona em Santa Catarina, entre outros.

Em 1962, em Ponta Grossa/PR, Nhô Bastião, adoentado, já havia abandonado os palcos, recolhendo-se com a esposa e os dois filhos mais novos. Certa noite, em Cruz Alta/RS, enquanto preparava-se para entrar no palco, caracterizado como o palhaço Serelepe, o seu filho José Maria, recebeu a notícia que o pai falecera. Maquiado, ele refreou as lágrimas e subiu ao palco, fez rir a platéia que, em momento algum, desconfiou o drama vivido pelo palhaço em cena. Casado em 1959, com Lea Benvenuto de Almeida, cuja família havia se reunido à trupe em meados dos anos 50, Serelepe assumiu a continuidade da história artística que herdara. O Teatro Serelepe permaneceu excursionando pelo interior gaúcho, fazendo a alegria e levando às lágrimas aqueles que o conheceram, quando se desfez, pela primeira vez, no ano de 1981, sob o forte impacto da concorrência imposta pela televisão.

Conheci-os em 1971, quando, pela primeira vez, estiveram em minha cidade natal, a pequena Restinga Seca/RS. O meu pai, que já havia me iniciado no amor à arte, permitiu-me adentrar aquele universo mágico. Ali, no pavilhão de zinco, ouvi falar em Shakespeare, Alexandre Dumas e outros grandes nomes da cultura ocidental. Mas isso, eu conto outro dia!

(*) Doutora em Letras/UFSM 2013

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