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Crônica: Idas, vindas e esquisitos

Gregório Avanzi Pelegrino (*)

Sempre me deparo com pessoas na vida que perderam a essência do viver. Aqueles que fazem da melancolia o próprio chão, outros que perpetraram as raízes do conformismo em algum lugar. Ou até quem vê no horizonte mais medo que oportunidade. Tenho dificuldade em lidar com situações como essa porque carrego comigo um sentimento que nossos colegas gringos gostam de chamar de wanderlust. Amor por viajar, pelo desconhecido, ou o famoso inconformismo brasileiro aqui para nós. Note que essa vontade não é derivada de algo que eu sinta falta em nosso território, muito pelo contrário. São as maravilhas que já tive a chance de presenciar que inspiram a constante busca por ainda mais. Dos lugares que passei e vivi, das pessoas que conheci e das histórias das quais fiz parte, da acidez dos paranaenses, a versatilidade dos paulistas, o grosso dos mato-grossenses e até a beleza do Rio Grande do Sul. As palavras falham no ato de descrever tais sentimentos de forma simples. Repare também que nem sempre essas idas e vindas são limitadas ao mundo real. As melhores viagens também são pautadas em músicas, sentimentos, bons beijos ou noites acalentadas. De forma geral, tudo aquilo que faz com que nos espaçamos da chatice cotidiana e abra novos parágrafos para se preencher. O que não me conformo são essas pessoas que preferem deixar suas próprias páginas em branco.

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Opinião: O valor da política e a política sem valor

É preciso muito mais que um simples processo de impeachment para que tenhamos um Brasil melhor

Rômulo Augusto Araújo Bronzel (*)

O momento histórico por que passa nosso país, com o prosseguimento do processo de impeachment da presidente da República, aprovado por 367 dos 513 deputados que compõem a Câmara Federal, com certeza indica algo muito maior que o simples afastamento da pessoa ocupante do mais alto cargo executivo.

Ao assistir às manifestações dos deputados na tarde de domingo é possível extrair muito pouco do que o Brasil quer ouvir. Infelizmente, esse é o verdadeiro retrato da política em nosso país. Os líderes têm pouco a dizer, falta sensibilidade para interpretar o anseio da nação, não há engajamento com a vontade emanada do povo.

O sentimento que se perpetra há anos em nosso país é o da “mais-valia” para com o Estado, no qual os políticos de todas as esferas investem seu precioso tempo em favor de valiosos benefícios a si próprios e aos seus financiadores, condição essa que ficou muito bem caracterizada na votação de domingo.

Não há pauta por um Estado melhor; ninguém protesta a favor dos meios de produção e distribuição de riquezas através do trabalho digno, alcançado por uma educação de qualidade. Não se vê nem um partido sequer protestar por um planejamento integrado e uma unicidade de esforços. Serão esses objetivos muito distantes? Essa é a interpretação do mercado internacional, que mesmo após a votação do processo de impedimento reluta em trazer seus dólares para o Brasil.

É preciso muito mais que um simples processo de impeachment para que tenhamos um Brasil melhor – aliás, há um grande risco de esse procedimento cair em verdadeiro descrédito internacional, pois se aguardam mudanças drásticas para oferecer crescimento ordenado à nação, mas que custarão impopularidade àqueles que subiram ao púlpito para declararem um sim com o simples objetivo de agradar suas bases.

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Opinião: As três lições da crise política

Rodrigo Daniel Silva (*)

A atual crise política que o Brasil atravessa trouxe à baila a discussão sobre o papel que deve desempenhar três figuras relevantes em uma democracia: a oposição, o vice e os partidos.

No que concerne ao primeiro, temos visto, em nosso tempo, prevalecerem dois tipos de opositores: os que ficam “omissos, silentes e mudos” diante de ridículos tiranos ou os que apostam no “quanto pior, melhor”. É óbvio que nenhum dos extremos engrandece um estado democrático. A virtude está no meio-termo, já nos advertia o filósofo Aristóteles ainda na Grécia Antiga. Mas, qual é o papel da oposição? Qual o limite das críticas e dos ataques?

Decerto, ficar em gabinetes tramando armadilhas contra adversários não cabe aos opositores. Agir desta maneira é ser antidemocrático e egoísta. É pôr em segundo plano os interesses sociais. A oposição não deve ser responsável por gerar uma crise para galgar poder, mas não se pode condená-la se a usar, quando provocada pelo próprio governo, para alcançá-lo, apresentando projetos que nos mostrem um futuro. Não há pecado nisso. A crise europeia derrubou 10 presidentes, levando oposicionistas ao poder. Oposição que não se vale de uma crise econômica para chegar ao trono, jamais merece ser governo. Frise-se bem, pela via democrática.

Apontar falhas da gestão, combater ilegalidade, propor e defender novas ideias são os principais papéis dos opositores. Mas, tudo isso, deve ser feito respeitando os princípios constitucionais. Os ventos da democracia já varreram o autoritarismo que havia em nosso país.

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NICO E OS CAVALEIROS DA PAZ

Vale a pena ler a carta que Nico Fagundes e seus cavaleiros mandaram para o superintendente da Receita Federal agradecendo a atenção que receberam.

OF. N° 265/90
Porto Alegre, 16 de julho de 1990

Ilustríssimo Senhor
ANTONIO GILBERTO DA COSTA – M. D. Superintende da RECEITA FEDERAL

Senhor Superintendente:
É nosso prazer é nosso orgulho elevar até Vossa Senhoria o resultado positivo da promoção do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore "Cavalgada Internacional da Paz".
Ao longo de 704 km, desde Alegrete a Assunción, vinte cavalarianos gaúchos espalharam aos povos de três países do Conesul da América uma mensagem de integração efetiva, de fraternidade e de paz. No Rio Grande do Sul, desde Alegrete até

São Borja; na Argentina, desde Santo Tomé até Posadas e no Paraguai, desde Encarnación até Assunción, os Cavaleiros da Paz - como foram chamados - mereceram a hospitalidade, o carinho e o aplauso da gente humilde dos ranchos e dos fazendeiros mais apoderados, dos pequenos alunos e professores de escolas de beira de estrada às mais altas autoridades municipais e provinciais, dos jornalistas aos tradicionalistas, todos manifestaram a uma voz sua admiração pela façanha dos gaúchos rio-grandenses.

Falamos em português ou espanhol - eventualmente com frases em guarani - em Centros de Tradições Gaúchas, em colégios e auditórios, à beira da estrada e em praças públicas transmitindo os objetivos da grande marcha.

Vencemos a inundação nos três Países, atravessando o rio Uruguai com 16m acima do seu nível, saindo de uma rua do Passo de São Borja e ancorando em outra rua quase no Centro de Santo Tomé. Vencemos uma tormenta que nos destruiu o acampamento ainda no Brasil, cavalgamos dias a fio abaixo de chuva e vento, quebramos geada a pata de cavalo, tivemos homens lesionados e cavalos rendidos - mas chegamos lá.

E merecemos a mais calorosa acolhida por parte da Embaixada do Brasil em Assunción. E regressamos exaustos e felizes, orgulhosos do dever cumprido.

E se isso foi possível, Senhor Superintendente, muito se deveu a Vossa Senhoria e eficientes assessores, notadamente em São Borja. Jamais esqueceremos a boa vontade e a presteza com que foram superadas questões burocráticas e técnicas.

Gostaríamos que Vossa Senhoria determinasse chegar ao conhecimento de seus subordinados em São Borja a nossa gratidão.
Mil gracias, Senhor Superintendente!

ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES
Diretor Técnico
Comandante da Cavalgada Internacional da Paz

Opinião: Apertem os cintos: o crédito sumiu!

*Por Lélio Braga Calhau

Os anos de "farra" do crédito fácil e barato iriam acabar em algum momento. As contas públicas não fechavam. Era uma situação que, a grande maioria, sabia que não se sustentaria no longo prazo. Um país não pode se manter indefinidamente apenas pelo consumo. E, pelo que estamos vendo, chegou o fim dessa era.

Graças à tradicional falta de visão de médio e longo prazo dos nossos administradores públicos, a coisa é tocada, na maioria das vezes, do mesmo jeito nas três esferas. Privilegia-se, quase que religiosamente, o curto prazo. O médio e o longo não garantem a eleição e, se algo der errado, empurra-se o problema para o próximo administrador. É só a gente olhar a questão da crise hídrica para ter certeza disso. Ela não surgiu do nada e nem começou ontem. Foi empurrada com a barriga e estourou, por "coincidência", depois do resultado das eleições.

Então, pelo que se vê, não há nada mais a esconder. Chegou a hora do ajuste econômico também. O avião chamado Brasil vai ter que aterrissar, pelo menos por algum tempo, para "manutenção". O que vai ser feito pelo governo federal, eu não sei, mas torço para que dê certo. Mas, uma coisa estamos vendo, iremos pousar este avião "de barriga". Poderá haver grandes danos e prejuízos para muita gente e o momento é de ação e prudência.

Pegar empréstimos agora é o menos recomendável. A não ser que você tenha uma estratégia muito definida, e não o use para o consumo, você deve evitar a todo o custo essa opção. Os juros subiram e poderão aumentar mais nos próximos meses.

Venda tudo que tenha de supérfluo, corte ao máximo as despesas e prepare sua "reserva de emergência. Não espere o perigo chegar para descobrir que você não tem um "paraquedas de emergência". Tenha cautela ao gastar e lembre-se que, se a economia piorar, podem ocorrer ondas de demissões e você ou parentes próximos podem ser afetados. Esteja preparado para isso.

Se você é um profissional focado em entregar resultados e resolver problemas, provavelmente, não será afetado. Ou, talvez, até promovido. Na época de crise, as empresas demitem quem não entrega resultado e preservam, no geral, os melhores para superar a época das "vacas magras". Se você não está neste grupo de pessoas focadas em resultados, há tempo ainda. Há excelentes cursos gratuitos na internet para melhorar a sua empregabilidade e, para quem está com o coração aberto para mudanças, uma crise pode ser a oportunidade de uma grande virada profissional na vida.

Enfim, vamos ter de reaprender (todos nós) agora a conviver com juros mais altos e menos crédito, mas com dedicação e esforço de todos, do grupo familiar, inclusive, poderemos amadurecer financeiramente e tirar novas conclusões desta crise econômica (e de tantas outras que de forma recorrente ainda encontraremos pela frente). Crises vão, crises, vem. Esta não será a primeira e nem a última. Temos é que estar preparados financeiramente para enfrentá-las. E não se esqueça que crise, para muitos, é sinal de "virada de mesa". É como diz aquele ditado: "enquanto uns choram, outros vendem lenços". De que lado você quer estar?

*Promotor de Justiça de defesa do consumidor do Ministério Público de Minas Gerais. Graduado em Psicologia pela UNIVALE, é Mestre em Direito do Estado e Cidadania pela UFG-RJ e Coordenador do site e do Podcast "Educação Financeira para Todos".

Opinião: Como ficará o agronegócio neste novo governo Dilma?

*Por José Luiz Tejon Megido

As perspectivas são sombrias. E, por isso mesmo, carentes de alertas. O agronegócio em 2014 teve um superávit na balança de pagamentos do Brasil de US$ 80.13 bilhões. Enquanto o déficit da balança brasileiro foi de US$ 3.93 bilhões – o pior desde o ano 2000. E o que temos pela frente? Na safra 2014/2015 ainda uma perspectiva de manutenção das receitas obtidas no ano passado, mas, ao plantarmos a safra 2015/2016, poderemos estar imersos num custo consideravelmente maior de produção, com preços, na melhor das hipóteses, estabilizados nos patamares atuais. A tecnologia vai sofrer, a produtividade cair, e ainda rezando para São Pedro comparecer e salvar a lavoura com regime de chuvas.

O que salvou o ano das safras 2013/2014/2015 foi a soja que mesmo com preços menores foi equilibrada por uma oferta maior. E as carnes fundamentalmente frango e carne bovina em 2014. O caos foi no setor de açúcar e álcool, com um faturamento em 2014, menor em 24% comparado ao ano anterior.

Agora vamos imaginar se tudo o que está desenhado na economia, com inflação crescente, dólar valorizado perante o real – pode parecer bom para vender a safra de exportação, mas terrível para construir o próximo custo de produção; o nosso cliente chinês, mantendo as posições atuais, sem perspectivas de crescimentos extraordinários, um preço do petróleo apertando nossos principais clientes do Oriente Médio, e a própria Rússia; além de uma perspectiva de maior oferta de commodities agrícolas, pelos concorrentes globais, e da eficácia competitiva maior de muitos deles – vamos amargar uma potencial crise no agronegócio brasileiro, fundamentalmente para o ciclo 2015/2016. E ainda contando com uma improvável competência de liderança do governo e da governança de todo o entorno do agronegócio nacional.

De 2009 a 2014, o custo da agropecuária brasileira cresceu em media 74% - no lado dos fatores de produção. Do lado de fora das porteiras das fazendas, o custo lavoura-porto em 2003 era na média US$ 20; em 2014: US$ 90 por tonelada, comparáveis a US$ 23 dos Estados Unidos e US$ 20 da Argentina.

Os produtores brasileiros que tenho conversado no país inteiro, estão como sempre plantando, trabalhando, mas muito apreensivos, de olho no próximo ano agrícola. Este governo vive hoje totalmente agrodependente, e a confiança com investimento, não podem ser palavras e práticas generalizáveis para o futuro próximo, do lado dos campos brasileiros.

Hora de apertar os cintos no agronegócio e rezar para que a gestão econômica, política e estratégica do Brasil (de volta Mangabeira Unger!), possam ter boas sementes de sensatez.

*Conselheiro Fiscal do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), Dirige o Núcleo de Agronegócio da ESPM, Comentarista da Rede Estadão.

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