A consulta com o médico psiquiatra foi, por muito tempo, encarada como motivo de receio, e mesmo vergonha, por parte de pacientes e familiares. O estigma para com aqueles que venciam esse preconceito e procuravam seu atendimento era tanto que o paciente, muitas vezes, fazia o que estivesse ao seu alcance para não ser “descoberto” consultando. O psiquiatra era procurado apenas em casos mais extremos, quando a sanidade mental do doente já estava por demais comprometida. No desespero, doentes e familiares eram quase que forçados pelas circunstâncias a ignorar os olhares maliciosos das outras pessoas. “Entendo que esse preconceito se devia, ao menos em parte, às ideias que povoavam o imaginário geral, as quais remetiam a cenários de doentes mentais graves enclausurados em antigos manicômios sombrios, como o de Barbacena - fechado já há décadas. Ocorre é que aquilo não era psiquiatria”, opina o Dr. José Francisco Rangel, médico psiquiatra atendendo atualmente em nosso município. 

As coisas mudaram. Embora ainda exista algum preconceito, é inegável que a impressão da sociedade sobre o acompanhamento psiquiátrico mudou - para melhor. Atualmente, há o correto entendimento de que não há motivos para se ter vergonha da doença mental. Além do mais, havia, naquele passado, uma gama enorme de pessoas que não eram portadoras de transtornos graves, mas que tinham algum sofrimento psíquico, ou que simplesmente queriam compreender-se melhor, porém se mantinham longe da avaliação psiquiátrica devido ao preconceito. “A psiquiatria não se destina a ajudar apenas os doentes mentais mais graves, os psicóticos (sofredores da ‘loucura’, como se dizia muito); ela existe também para ajudar as pessoas em geral: que estão ativas, trabalhando, cuidando de suas famílias, convivendo socialmente, sobrecarregadas com questões diversas do âmbito pessoal, familiar, social, profissional ou mesmo existencial”. Em suma: pessoas comuns, talvez como você e eu, que podem estar necessitando de um auxílio ou de uma avaliação psiquiátrica para simplesmente viverem melhor suas vidas. A psiquiatria existe também para ajudar esses indivíduos. 

A parcela atual da população que poderia ser ajudada por um médico psiquiatra segue tão grande quanto antigamente, ou maior. “O tipo de vida que escolhemos na modernidade contribuiu, depois de algumas poucas gerações, para o surgimento de uma época aparentemente com mais angústia, mais ansiedade, mais frustrações, mais revolta, mais perda de sentido; evidentemente que tal estado de coisas é favorável ao desencadeamento de conflitos interiores, neuroses ou mesmo transtornos mentais de leves a graves; e realmente, é com essas realidades que nos deparamos muito frequentemente em nosso dia a dia”, afirma. Por outro lado, hoje em dia as pessoas estão buscando a avaliação psiquiátrica com mais naturalidade, e isso é positivo, pois é sinal de que houve a desmistificação de um instrumento bastante útil para o homem atual. 

Em torno de um quinto da população sofre de ao menos um episódio de depressão ao longo da vida, o qual, no passado, não era diagnosticado e gerava, como hoje, um prejuízo significativo na qualidade de vida. “O diagnóstico de depressão, ou Transtorno Depressivo Maior, na linguagem mais precisa, em geral é relativamente simples de ser feito. E é curioso como antigamente se resistia a procurar o auxílio psiquiátrico, pois o psiquiatra já estava lá para ajudar. Ainda bem que essa resistência tem diminuído bastante, mesmo porque o arsenal de tratamento é formidável; ainda que a psiquiatria evolua numa velocidade menor do que o restante da Medicina, as opções de tratamentos que temos hoje disponíveis é incomparavelmente maior do que no passado”.

Outros transtornos comuns são os de ansiedade. “Os transtornos ansiosos muitas vezes trazem muito impacto para a vida do ser humano. Embora não esteja entre as psicopatologias mais graves, o fato é que geram um prejuízo significativo no funcionamento do indivíduo, deixando a vida cotidiana mais pesada, instável e desprazerosa”. Além dos dois exemplos aqui citados, há outros inúmeros casos que provavelmente estão neste momento afetando parte significativa da nossa sociedade, mas que são menosprezados como problemas de pouca importância. “É o caso da insônia, que atinge uma parcela importante da população e que acarreta prejuízo no rendimento das relações pessoais, familiares ou sociais ao longo do dia; ou das neuroses existenciais, que não são casos propriamente de depressão, mas que fazem a pessoa acreditar que não há um sentido para a sua vida”. 

Essas são algumas das diversas situações possíveis de se apresentar, de leves a graves, e que podem e devem motivar o ser humano a buscar uma avaliação psiquiátrica. “São situações bastante comuns porque são tipicamente humanas. É curioso que as pessoas possam sentir vergonha por estarem passando por algo que as distingue dos demais seres. Afinal, nós podemos nos deprimir, ficarmos ansiosos demais, frustrados ou termos qualquer transtorno mental, justamente porque somos seres humanos, e temos um tipo de sede diferente dos demais seres quando algo está nos incomodando um pouco mais profundamente”, finaliza Rangel.

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